Há muitos e muitos anos conheci uma menina ótima, educada e talentosa chamada Israa, que vive na Arábia Saudita com sua família. Desde então mantemos contato virtual. Vi a Israa crescer, acabar a escola, ir pra faculdade e fico muito grata pela internet ter me possibilitado manter contato e criar laços com alguém de uma cultura tão diferente da minha.

Quando pedi a ela que respondesse algumas perguntas sobre a posição e o papel das mulheres na Arábia Saudita, ela topou de imediato. Disse que ficava feliz em colaborar e mostrar um pouco da cultura em que vive. Como nossas conversas são sempre em inglês (curiosamente ela faz graduação em Letras – Francês), traduzi para poder disponibilizar no blog. O post é bastante longo mas, vale a pena ler na íntegra, em especial a última pergunta, em que a resposta dela me deixou impressionada, tamanha a maturidade.

(Israa, sweetheart! Thank you so much for this!!)

 

As mulheres da Arábia Saudita: diferenças culturais

 

Uma das primeiras coisas que lembramos ao pensarmos nas mulheres da Arábia é a necessidade de vestirem a Burka. Por que há essa necessidade? Vocês precisam vesti-la mesmo em casa?
A Burka é utilizada por certos grupos de pessoas, nem todo mundo que conheço a veste e eu NÃO uso uma. Na verdade sou contra seu uso em alguns aspectos. Ela existe na nossa religião, mas seu uso depende do grupo seguido. Alguns pregam o uso pelas mulheres, outros não se importam se a mulher a veste ou não. E não há necessidade de usá-la em casa. Só é utilizada na rua a fim de que as mulheres não possam ser identificadas por homens que não são seus irmãos, maridos, pais, tios, avôs, sobrinhos e filhos.

Então, como é chamada a roupa que vocês usam para cobrir a cabeça e o corpo? E qual a diferença entre ela e a Burka?
Basicamente usamos o véu, que cobre nossos cabelos e o pescoço. A Burka cobre todo o rosto. Temos que usar também a Abaya, que se assemelha a um longo vestido, sobre as roupas que vestimos. Por exemplo, se estou usando calça jeans e camiseta, tenho que vestir a Abaya e o véu por cima antes de sair de casa para as compras, restaurantes, qualquer lugar. Na foto a seguir apareço vestindo o véu e a Abaya no centro da cidade! Minha amigas e eu não usamos a Burka nem a Niqab (são quase a mesma coisa), então é assim que aparecemos em público!

Israa - Saudi ArabiaÉ permitido que vocês mostrem todo o rosto e cabelos?
Sim, nós podemos, uma vez que em nas fotos dos nossos passaportes e R.G.s não cobrimos o rosto. E, como eu disse antes, não cubro meu rosto.

E quanto a ter amigos (homens)? Lembro que uma vez você disse que algumas famílias permitiam. Como isso funciona no seu país, em geral?
Dizem que não podemos ter amigos (homens) por motivos religiosos, mas não é assim. Eu tenho amigos (homens), meus pais sabem disso e estão ok com a situação. Contudo, não são muitos pais e irmãos que aceitam que suas filhas e irmãs tenham amigos. Ainda é algo novo na nossa sociedade.

Também lembro que um dia você me disse algo sobre votar e dirigir. É permitido que as mulheres votem e dirijam?
Votar agora é permitido. E tendo em vista que somos um país sob um sistema monárquico absolutista, nós votamos somente para cargos menores, como “prefeitura” e políticos para fazerem parte do conselho. No entanto, dirigir ainda não nos é permitido. Estamos lutando por ese direito.

Como funciona o casamento?
A maior parte das pessoas não conhece seu futuro parceiro(a) antes do noivado. O casamento é arranjado pelas famílias, mas algumas permitem que os noivos se encontrem sob supervisão dos pais durante o período do noivado. É o seguinte: a mãe do futuro marido gosta de uma garota, a escolhe, conversa com seus pais e marcam uma data para que a mãe e o filho possam ir a casa dela e o filho conhece-la. Eles se conhecem e se um gostar do outro, o casamento acontece após o noivado. Se não se gostarem, tanto o rapaz quanto a moça podem recusar o casamento. Atualmente, por algumas famílias permitirem que tenhamos amigos homens, nós podemos já conhecer (antecipadamente) o rapaz que virá pedir nossa mão em casamento. Mas, como disse, nem todos os pais aceitam essa ideia ainda.

Israa -Saudi ArabiaE sobre as profissões? Você pode, por exemplo, decidir ser uma engenheira?
Atualmente nós podemos estudar engenharia, arquitetura e podemos trabalhar nesses campos. Antes as profissões não eram tão “elaboradas”,  as mulheres costumavam ser professoras, médicas, enfermeiras, artistas. Não eram muitas as profissões aceitas para as mulheres. E uma mulher não pode trabalhar em construções, por exemplo.

Há alguma lista oficial de proibições para mulheres?
Dirigir, nadar em praias públicas, andar de bicicleta nas ruas, até onde eu sei. Mas podemos nadar em praias particulares e dirigir e andar de bicicleta nas mesmas condições. Na cidade é proibido.

Que penalidades vocês podem receber por mau comportamento? Por exemplo, se forem infiéis aos seus maridos.
Ser infiel ao marido é uma questão de extrema importância. As penalidades não podem ser colocadas em ação a não ser que o marido tenha 3 ou 4 testemunhas quanto ao assunto. Se ele tiver e as testemunhas forem sinceras, a mulher será apedrejada até a morte. O mesmo vale para o marido, ambos sofrem as mesmas penas quanto a infidelidade. Hoje em dia as pessoas escondem o ocorrido, ainda que que sejam infiéis. Não há um confronto público, todos permanecem em silêncio e nada acontece.

Existe algum controle sobre o que vocês leem, ouvem ou no uso da internet?
Há o controle. Sites pornográficos são fechados, por exemplo, e qualquer outro site que contenha “pensamentos que possam destruir a juventude” são fechados.

Vocês possuem algum dever doméstico?
A esposa possui seus deveres. Tomar conta do marido e das crianças consta na nossa religião, mas ela não precisa cozinhar ou limpar a casa. O marido pode contratar uma empregada para ajudá-la com os deveres domésticos. Na minha opinião, limpar, cozinhar e lavar minhas próprias roupas significa independência. Em nossa casa temos uma empregada que ajuda minha mãe.

Qual a maior diferença entre as mulheres da sua cultura e da minha?
Não vejo muita, apenas o ambiente em que somos criadas. Mulheres são mulheres em qualquer lugar que estejam. Elas amam, odeiam, trabalham pesado, falham, recomeçam, em qualquer lugar. A única diferença é que nós temos que usar o véu e vocês não. Somos semelhantes demais para sermos diferentes.

Categorias: Café e Prosa, Entrevista | 29/04/2012

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13 Responses so far.

  1. Muito legal!
    Eu adoro pensar nessas diferenças culturais, meu sonho é poder viajar bastante, depois que me formar e ter um bom emprego, para conhecer as mais diversas culturas. Acho que esse é o grande objetivo da minha vida, apesar de ter tanta paciência em esperar(e correr atrás) até que isso seja possível, acho que é a cosia que eu mais quero. Achei bem legal a entrevista e a Israa parece ser muito simpática. Seria legal uma entrevista ao contrário para saber as curiosidades da Israa sobre nós e um pouco do que ela pensa sobre a nossa cultura.

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  2. Wellington says:

    É realmente um impacto ver quem foi criada realmente nesse meio falar sobre uma coisa que é tão externalizada e diferenciada que temos sobre isso. Concordo com a resposta final, as mulheres vão ser iguais não importa qual lugar do planeta, salvo alguns costumes e pormenores.
    Sim, existe um estereótipo por várias pessoas apresentarem comportamentos similares, mas vejo que tais mulheres possuem liberdades e ideais tão grandes quanto de mulheres de qualquer lugar do mundo. A cidade que eu vivo pôde me dar essa visão. And congrats Israa, for sharing this piece of knowledge with us.

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  3. Ventura says:

    Bem legal a entrevista! Mas diferente do que ela pensa, creio que só pelo fato de uma infidelidade ser tratada com apedrejamentos, temos um penhasco de diferença entre as sociedades…mas creio muito que cada país deve ser regido pelo regime que o configura, que configura seu povo. Engolir a democracia “goela a baixo” para o mundo todo e a idéia de mulher cosmopolita e livre do ocidente, é algo aplicável exatamente onde é visto como algo normal. Não há certo e errado, porém devemos respeitar as diferenças. Seja em âmbito social, seja político.

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    Lyra Reply:

    Eu penso assim: o valor da vida das pessoas é diferente em cada sociedade, mas acho completamente insano que pessoas sejam apedrejadas em pleno 2012, e que mulheres sejam tomadas como propriedade de homens, com o aval do governo/estado. Tenho impressão que seja ocidente ou oriente, as pessoas não aprendem. Acho que respeitar determinadas diferenças é convir com abusos, por exemplo, se a nossa sociedade ocidental permitisse casamento por arranjo, ou instituísse que a mulher não poderia trabalhar ou estudar: pensar sobre isso, sobre a significação desses direitos sociais podados pelo Estado, me dá arrepios. Sou completamente a favor de instaurar democracia e evitar que mulheres morram apedrejadas com aval do governo religioso, ou passem pelo que algumas (não poucas) mulheres passaram (http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI3294511-EI8143,00-Iemen+menina+pede+divorcio+e+ameaca+se+matar.html), e sou a favor da ONU intervir sempre que achar que é absurdo, como esse caso também: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/03/marroquina-comete-suicidio-apos-ser-forcada-casar-com-estuprador.html (Marrocos). Sei que absurdos acontecem em todas as sociedades. Mas ter o aval do Estado pro sofrimento e pra falta de direitos é uma coisa que me deixa aflita.

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  4. Lyra says:

    Adorei esse post, Bruh. Não sei se minha visão de mundo é contaminada demais pelo nosso estilo de vida ocidental, mas me deixa triste saber que na Arábia Saudita uma moça é obrigada a sair de casa utilizando uma roupa de determinado jeito, só recentemente pode votar e não pode dirigir. E que no ano de 2012, ainda existe pena de apedrejamento em vigor. Tenho a impressão de que a Israa vive tranquilamente sob sua cultura natal, e que sua família é mais tranquila do que a visão que temos de famílias do oriente médio. Mas mesmo assim me dá uma certa aflição, pensar que se ela resolver se casar, uma pessoa aleatória vai escolher o marido, ela vai vê-lo pouco antes de se casar e pronto. E que existem diversas podas sociais, como o bloqueio da internet citado aí.
    Sinceramente, li o post e continuei pensando que por mais que as coisas sejam complicadas onde a gente vive, é melhor do que não poder fazer um monte de coisas em função de uma sociedade que (ainda) vive sob regência religiosa. E sabe, nesses países, talvez ela seja uma exceção. E acho sim que há certo e errado; só consigo pensar que apedrejar uma pessoa (e creio que isso deva acontecer bem mais com mulheres, em função do regime que aparenta ser completamente voltado para a propriedade do homem – “Só é utilizada na rua a fim de que as mulheres não possam ser identificadas por homens que não são seus irmãos, maridos, pais, tios, avôs, sobrinhos e filhos”) não é certo em sociedade nenhuma.

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  5. pinkperry says:

    Realmente a resposta para a última pergunta ‘aproxima’ um pouco as mulheres do ocidente e oriente, desmistifica um pouco as noções que temos sobre o lado de lá, embora existam algumas diferenças ainda significativas como algumas proibições que existe ainda.

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  6. Clayci says:

    Que dezzzz… Eu adorei ler essas curiosidades, legal vc ter amigos assim mesmo distante ^^

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  7. Jessica says:

    Muito interessante o seu blog! Adorei o conteúdo e o layout. Já favoritei para voltar mais vezes :)

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  8. Muito bacana esse post. Conheci na minha última viagem para o Chile uma indiana que AMAVA o país dela e sua cultura, ainda que para nós ela parecesse extremamente proibitiva e “atrasada” em alguns aspectos. E as mulheres são mesmo iguais, independente do lugar do planeta em que elas vivem! Mandou bem Bruh!

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  9. Que legal! É engraçado pensar que assim como os brasileiros são taxados de “sem limites” em termos morais (ok, talvez seja…), a visão que temos deses países é de uma mulher totalmente sob controle de outras pessoas. Bem, não parece ser exatamente assim. É fato que são culturas um pouco diferentes, mas menos do que vemos na TV e jornais.
    E importante saber que há uma luta por coisas ainda não permitidas, como dirigir. Muito bacana, Bruh!

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  10. Lívia Azevedo says:

    Legal… Só esqueceu de falar no mutilamento genital feminino que é praticado por todo o Reino da Arábia Saudita. Removendo pequenos lábios e clitóris e costurando um grande lábio no outro deixando um minúsculo buraquinho para sair urina e menstruação.

    Não preciso nem dizer que as mulheres são literalmente rasgadas quando fazem sexo pela primeira vez.

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  11. Eu says:

    Eu gostei muito da matéria e me ajudou a entender melhor essa cultura… Estou gostando de um menino árabe que está no EUA. Já pensou se eu viro esposa dele? Como deve ser? Será que eu tenho que seguir essas regras? E eu tenho medo dos outros da cidade me pegarem e fazer maldade comigo por que sou estrangeira, dizendo que estou levando maus costumes para a população e a cidade. Teria como você perguntar isso da sua amiga e escrever aqui na resposta? Infelizmente não posso dar meu nome é email verdadeiro. Desculpa.

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  12. Suzaneide Oliveira says:

    Gostei muito, foi muito útil p mim, pq estou preste a casar com um arábi.

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